
- Mãe? Pai? Estão em casa? - gritara com tremor na voz.
Ninguém me havia respondido. Pousei as malas no chão do hall e percorri todas as divisões da casa, o chão estava com pequenas manchas de espuma no chão. Não sabia exactamente o que, mas algo gelado me atravessou o corpo. Subitamente congelei e parei de caminhar. Fiquei perplexa. Acabara de ficar perturbada com uma situação que brincara durante imenso tempo. Lembrara-me quando a minha amiga Margarida me confrontara com uma imensidão de programas televisivos ou livros que havia visto sobre espíritos e assuntos do género. Ela acreditava em espíritos, e lembrara-me que um dia me havia dito que quando sentimos um grande arrepio gelado seria supostamente um espírito a passar pelo nosso corpo. Não sabia porquê, mas lembrara-me disso e ainda me arrepiei mais. Aquilo havia-me deixado perturbada.
- Joana? Onde andaste?
- Martim? - corri até ao meu irmão e abracei-o tanto que senti que o ia esmagar. Olhei-o e ignorei a pergunta dele - O pai e a mãe? Eles estão bem?
Olhou fixamente para mim e nada me respondeu. O meu irmão tinha apenas 6 anos, mas desde muito novo diagnosticaram que ele seria sobredotado, percebia tudo o que diziam, mesmo não sendo uma conversa a seu respeito. Aquele menino era incompreensivelmente inteligente, no entanto, como eu nunca havia lidado com nenhuma pessoa com aquele tipo de diagnostico, ainda não interagia muito bem com ele.
- Eu não sei mana - li na sua expressão facial que alguma coisa não estava bem.
- Como não sabes? Eles estão onde?
- Já disse que não sei Joana. - começou a chorar. Agarrou o meu pescoço impulsivamente e mergulhara a sua cabeça no meu longo cabelo não me deixando olhar a sua cara chorosa.
- Conta-me o que se passou, porque estás assim?
- Eu tenho fome Joana.
- Tens fome?
- Sim
Naquele momento o meu corpo congelou completamente. O meu irmão estava com fome? Porquê? Onde estariam os meus pais? Um turbilhão de perguntas invadiam o meu pensamento e fiquei perplexa a sentir aquele abraço apertado do meu irmão. De repente voltei a cair na minha consciência. Voltei à realidade e peguei o meu irmão ao colo de imediato. Desci as escadas até ao rés-do-chão e dirigi-me à cozinha. Não sei porque mas sentei-o em cima da mesa, a minha mãe odiava que nos sentasse-mos em cima da mesa, naquele momento parecia que ouvia a minha mãe a gritar para que tirasse o meu irmão dali com fim a ele não se magoar.
- Queres que te prepare o que para comeres?
Ele sorriu-se - Pode ser ovos mexidos com salsichas? - ele sabia que o podia comer, somente quando a minha mãe não se encontrava por perto. Ela fazia sempre um escândalo quando eu fazia alimentos fritos para o meu irmão. Um dia ele havia-me pedido para lhe fritar batatas para acompanhar com a carne ao almoço, e eu pensei que não havia problema pois a minha mãe só chegaria de noite a casa. No entanto a minha mãe tem um faro muitíssimo apurado, pois mesmo passado imensas horas entrou em casa e cheirou-lhe a fritos.
- Pode sim - sorri-lhe.
Enquanto lhe preparava aquele pequeno aperitivo voltamos a conversa.
- Podes-me contar agora o que se passou com os pais? Onde eles tão Martim? - tinha imenso medo da sua resposta.
- Eu só sei que houve uma grande discussão.
- Como assim discussão? - olhei para ele.
- Vou-te contar tudo o que sei - falou-me num tom um pouco intelectual e saiu de cima da mesa para se sentar numa cadeira - No dia que tu tiveste alta no hospital o pai ficou muito feliz e de imediato arrumou todas as suas coisas e algumas tuas e ia a caminhar até ao carro com fim a ir-te buscar. Eu estava na cozinha com a mãe a ajuda-la a ensaboar a loiça, e ela saiu da cozinha bruscamente quando ouviu o pai a arrumar todas as coisas apressadamente. Sinceramente assustei-me um pouco quando vi toda aquela pressa dela em direcção ao pai, tive imenso medo. Começaram numa grande discussão no hall de entrada mesmo com a porta da rua aberta. Eu não quis ouvir mais nada e subi as escadas. Subi com as mãos algo molhadas e sujei um pouco o chão com espuma. Mas não me preocupei com isso. Entrei no meu quarto, deitei-me na cama e coloquei uma almofada por cima da cabeça. Joana ... a discussão estava mesmo muito feia. Subitamente deixei-me dormir, nem sei como - parou se falar e começou a chorar novamente. Fitei-o e aproximei-me dele, abracei-o confortavelmente e acariciei-lhe a cabeça com movimentos rotativos.
- Continua amor. Não tenhas medo. - como lhe poderia dizer para não ter medo se eu própria o tinha?
- A discussão estava feia e quando despertei fiquei receoso. Fiquei um tempo ainda deitado na cama e aos poucos fui retirando a almofada de cima da cabeça para tentar ouvir se alguma coisa ainda se passava. Não sabia minimamente que horas eram mas estava noite escura. Levantei-me e dirigi-me ao piso de baixo. Não encontrei ninguém, nunca mais vi os pais desde o momento em que subi as escadas para não os ouvir.
Senti que o meu mundo ia acabar perante os meus olhos. Não sabia o que dizer ao meu irmão, mas tentei acalma-lo dizendo que iria ficar tudo bem. Dirigi-me de novo ao fogão e coloquei os ovos mexidos em dois pratos, sentei-me numa cadeira ao lado do meu irmão e começamos a comer impulsivamente sem nada dizer. Não sabia o que fazer nem como fazer. Onde estariam os meus pais? Naquele momento não estava aborrecida por não me ter ido buscar ao hospital, estava sim aborrecida por terem abandonado o meu irmão, porque sim ... aquilo seria um abandono.
Espero que tenham gostado tanto quanto eu.
Beijinhos, Maria Inês.
Desculpem a demora a postar