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Finalmente sai do hospital. Aquele espaço, aquele quarto e todo aquele ambiente transmitiam-me sentimentos horríveis. Não me saía da cabeça a maneira como a minha mãe me falou, o olhar dela, principalmente o quanto ela me ignorou. Eu tenho a noção que cometi um erro, mas não se diz que o amor de mãe é incondicional? Sempre pensei que ela estivesse a meu lado para me apoiar no bem e no mal. Sempre que eu chorava ela estava lá para me dar uma palavra de conforto, para me dar um abraço caloroso. O que é que mudou? Ela não percebe a minha dor, não percebe o que eu sinto, não entende os meus sentimentos. Não a quero perder.
Quando o doutor me deu alta senti emoções mistas. Por um lado, eu não queria ficar ali nem mais um segundo. Queria ir para casa, resolver todas as coisas com os meus pais, queria retomar a minha vida, queria viver. Por outro, tinha medo de sair dali, principalmente tinha medo de voltar a encarar a minha mãe. Se ela não teve a necessidade de me visitar no hospital, porque razão me iria receber bem agora?
- Joana, você está pronta para colocarmos o quarto livre? - interrogou-me uma enfermeira. Era bastante gentil. Durante a minha estadio não poderia ter razões que queixa por parte dos auxiliares médicos. Todos aqueles que me acompanharam mostraram-se bastante gentis e compreensivos, talvez mais que a minha mãe. Aquela enfermeira era particularmente doce. Já era uma senhora com aproximadamente 50 anos de idade. Já dispunham cabelos grizalhos e algumas imperfeições da idade no rosto. Sem dúvida, descava-se o seu sorriso, tinha os dentes particularmente bem tratados, sinceramente eu nunca cheguei a perceber se seriam verdadeiros ou não.
- Desculpe D. Aurora, perdi-me com os pensamentos e não dei conta das horas passarem. Eu preparo-me em 5 minutos, não se preocupe. - leventei-me rapidamente.
- Não tenhas pressas. Ainda tens tempo de te preparar em condições. Digamos que precisas de te preparar físicamente e mentalmente. - rematou aquela amável senhora.
Eu sentia que podia contar com ela. Inesplicávelmente comecei a chorar. Sentei-me na cama e a senhora aproximou-se rapidamente de me. Senti o seu toque delicado na minha nuca e encostou a minha cabeça contra o seu peito, num sentimento de conforto. Sem pensar, agarrei-a. Apertei-a tanto que não sei como não a sufoquei.
- Obrigada D. Aurora. Você está a fazer o papel da minha mãe e não tem obrigações disso, mas não sei com quem ei de contar.
- Minha querida, eu sei perfeitamente o que estás a passar. Eu engravidei relativamente nova, mas os tempos eram diferentes. Embora eu não saiba o que estás a sentir relativamente à ignorância por parte da tua mãe, sei o que estás a sentir por não teres a presença da mesma. A minha mãe faleceu quando e deu à luz e, consequentemente, não me pôde apoiar nessa fase da minha vida. - Olhei-a fixamente.
- Talvez eu esteja a ser egoísta. Certamente à pessoas numa situação bem pior que a minha. A-a D. Aurora, sinto muito pela sua mãe - levantei-me da cama. Não sei como, senti que havia recarregado a bateria. Senti uma nova força, não sei explicar como, nem de onde apareceu. Talvez por ter percebido que não sou única no mundo.
Observei que a D. Aurora me olhava fixamente enquanto arranjava e arrumava as minhas coisas. Não me importei minimamente se a senhora me observava enquanto me vestia, afinal tammbém era mulher, certamente não se iria importar pela minha falta de privacidade.
Decidi vestir uma blusa de certi modo justa de cor amarela, um casaco ligeiramente comprido às riscas cinzentas, azuis escuras e vermelhas. Peguei numas calças de ganga simples, mas senti que queria ser diferente, nunca gostei da ideia de ser apenas mais uma no meio de tantos. Apesar de estar um dia particularmente frio, vesti ums calções de ganga e calçei as minhas botas azuis escuras de cano alto. Aproximei-me de uma pequena divisão que se incluia no meu quarto, pode-se dizer que se tratava de uma casa de banho improvisada. Lavei a cara e escovei os dentes. Olhei-me ao espelho, foquei os meus próprios olhos. Estavam vazios. Aquele olhar brilhante que me destacava no meio de tanta gente, acompanhado de um grande sorriso brilhante, estava tornado agora numa expressão melancólica, sem vida. Tentei ignorar. Peguei na minha pequena maleta que maquilhagem. Coloquei rimel nas pestanas, um pouco de base bronzeadora na minha cara pálida e lip gloss quase transparente nos lábios. Olhei o meu cabelo e estava particularmente bonito. Penteei-o e deixei-o solto, embora tenha colocado um gorro azul escuro de malha.
- Estou pronta - olhei para a enfermeira e dei uma volta com fim a mostrar as minhas roupas e o jeito como me havia arranjado. Forçei um sorriso.
- Pela primeira vez estou a ver uma Joana linda. Não é que não sejas linda, mas tu percebeste - a D. Aurora sempre que conseguira deixar com um sorriso nos lábios.
- Obrigada D. Aurora. Bem, mais uma vez obrigada, mas está na hora de nos despedirmos. Muito, muito obrigada por tudo o que fez por mim. Obrigada por todas as palavras e por todo o conforto que me deu, sem si possivelmente não tinha forças para continuar - fiz força para não chorar, mordi o lábio.
- Oh minha querida! Não tens de agradecer. Agora boa viagem e porta-te bem, vem de vez em quando fazer-me um visitinha para eu saber novidades. Boa sorte para ti e para o teu bebé. - dito isto, sorri-lhe e sai do quarto trazendo todas as minhas malas.
Durante o caminho à saida do hospital lembrei-me se a minha mãe estaria à minha espera. Já havia falado com o meu pai e combinado as horas de encontro. Faltavam 3 minutos para a hora, certamente já me estava a esperar. Senti fraqueza nas pernas, tinha medo certamente. Como seria o reencontro com a minha mãe? O que ela me iria exigir? Estava com imenso receio.
Havia chegado à porta do hospital, estava uma imensidão de gente na sala de espera. Reparei numa senhora que estava grávida. Reparei na sua barriga e coloquei imediatamente a mãe na minha, foi a primeira vez que tomei consciência que algo se estava a criar dentro de mim. Será que ele estava a sentir o meu sofrimento?
Senti o ar fresco e puro que vinha da rua quando a porta de abria para dar permissão a alguém de entrar. Sorri para o exterior e caminhei até ele. Olhei em redor. Onde se havia metido o meu pai, e talvez a minha mãe? Comecei a desesperar. Será que se tinha esquecido de mim? Tentei pensar noutro assunto, certamente o meu pai não me faria uma coisa dessas. Avistei um banco de jardim que se encontrava a alguns metros do hospital. Se eu estivesse junto dele ainda conseguia observar quando o meu pai havia chegado. Caminhei até ele e sentei-me pousando as malas no chão. Esperei.
- Onde andam vocês familia? - perguntei eu para os meus botões.
Espero que tenham gostado.
Aguardem pelo próximo capítulo, agora de férias vou postar mais frequentemente.
Beijinhos e obrigada, Maria Inês.